domingo, fevereiro 19, 2006

Os erros de Veja sobre a encíclica papal

Em sua edição de 1o de fevereiro passado, a revista Veja, tratando da primeira encíclica de Bento XVI, comete uma série de erros (cf. “É o amor...”, p. 102), os quais pretendo refutar.

Insinua, antes de tudo, o conhecido magazine uma suposta diferença de temperamento entre o antes Cardeal Ratzinger e o agora Papa Bento. Aquele um linha-dura, um inquisidor, um defensor da ortodoxia, um intransigente, um intolerante, “uma fera”, no dizer do próprio semanário. Coroado Pontífice, mudou-se em um afável senhor, um delicado teólogo, um elegante poeta, em “uma doce criatura”, ainda conforme Veja.

Nada mais absurdo. Ratzinger não mudou. Continua protegendo a ortodoxa doutrina católica. E isso é ótimo! A dureza combina bem com a delicadeza, a intransigência com o diálogo. Há situações que exigem do Papa firmeza, outras tolerância. O Papa continuará sendo o defensor da Fé, o linha-dura se assim quiserem denominar. Sua missão não é capitular nos dogmas e na moral, mas defendê-la, guardá-la, transmiti-la. Precisando usar de dureza para isso, o fará, graças a Deus.

Por outro lado, se o Papa continua “uma fera” no campo da Fé, nunca o foi em outros terrenos. Os que apresentam Ratzinger como um antipático e incapaz de dialogar estão simplesmente enganados.

São duas circunstâncias distintas! Ao contrário do que a maior parte da imprensa mostra, o Cardeal sempre foi extremamente gentil, sorridente, educadíssimo e um refinado pensador. Nunca se negou a uma boa conversa, e era amante do direito do defesa (que ele concedeu, sim, ao ex-frei Leonardo Boff). Unânime tal juízo entre os que o conhecem desde o cardinalato. Se usarmos as expressões da revista, Ratzinger não se converteu em uma doce criatura, pelo modesto fato de que já o era.

Ao lado dessa docilidade no trato social, Ratzinger era duro. Todavia, duro com o erro, com o pecado, não com o pecador. Como falei: situações distintas. E estas pedem respostas distintas. Qual mãe de família, das mais frágeis, meigas e carinhosas, não se transforma em uma bravia guerreira para defender seus filhos? A imprensa exagera a combatividade do então Cardeal, esquecendo sua doçura; e também a doçura do hoje Papa, ignorando a combatividade que, ainda bem, persiste.

Bento XVI nem era antes só uma “fera” nem agora só um “doce”. Ele é o Papa: “doce” quando necessário, “fera” quando preciso. E nisso não existe mudança, repito, pois desde os tempos em que era Prefeito da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé (e antes mesmo, quando Bispo e presbítero), Joseph Ratzinger conjugava a doçura pessoal com a combatividade da missão.

Outro erro na reportagem é a surpresa diante do tema da encíclica, como se o amor fosse estranho à Igreja. Lendo o documento, temos uma prova claríssima de que ele é a base da Igreja. Só o preconceito contra a necessária dureza de Ratzinger é que impede os jornalistas de ver com naturalidade o assunto do amor em um trabalho de seu punho. Nos livros que escreveu quando era Cardeal, o alemão já acentuava o tema do amor. Quantos, entre os que comentam sobre o Papa, já os leram? Aliás, leram a encíclica em questão?

Ainda um terceiro erro. Mencionado o tópico da Encíclica Deus Caritas Est que discorre sobre o amor carnal, Veja alfineta: “Se o assunto é complicado para qualquer pessoa, imagine-se para o chefe de uma igreja que, como ele reconhece indiretamente, historicamente tratou o corpo como inimigo da alma.” Aqui a revista se supera: tal terceiro erro consegue desdobrar-se em dois! São duas mentiras em uma!

A Igreja nunca “tratou o corpo como inimigo da alma”. Sua doutrina é clara em afirmar que são uma só unidade substancial. Não fosse assim, não creríamos na Encarnação. Como a Igreja trataria o corpo como inimigo da alma, se ensina que o Verbo, o Filho de Deus, Se fez carne? Deus assumiu não só uma alma humana, em Cristo, mas também um corpo humano. E após Sua morte, Cristo ressuscitou, i.e., reuniu corpo à alma. Também nós ressuscitaremos um dia. Como a Igreja trataria o corpo como inimigo da alma, se ela afirma que nos últimos tempos eles se reunirão? Se o corpo é inimigo da alma, a felicidade estaria na sua libertação daquele. E não é o que cremos, e sim “na ressurreição da carne”. Como a Igreja trataria o corpo como inimigo da alma, se uma de nossas mais preciosas verdades é a de que a hóstia consagrada é o Corpo de Cristo? Adoraríamos o Corpo de Cristo, se ele fosse inimigo da alma?

O que a Igreja Católica ensina é a subordinação do corpo à alma, a sua inferioridade em relação a esta. Corpo é matéria, e a alma a forma do corpo, o que lhe dá coerência. O corpo é inferior à alma. Sem embargo, ser inferior não é ser inimigo. Pelo contrário, ainda que inferior, faz parte de uma única substância. Corpo e alma não têm sentido separados: é a morte. Tanto que voltarão a união no Juízo Final. Nisso não precisa crer Veja. Mas seria correto reconhecer que este é o ensino da Igreja, e não, segundo faz crer o artigo, uma suposta inimizade entre forma e matéria, entre alma e corpo. Veja não precisa ser católica. Deve, todavia, expor o que crê a Igreja Católica de modo verdadeiro, e não inventando mentiras.

Quiséramos ser mais dóceis com Veja, porém, diante do que acabamos de expor, não vemos outro rótulo para caracterizar sua acidez contra a Igreja do que o de pouca honestidade intelectual. Falta à verdade é pecar contra a caridade... E caridade é o tema da encíclica.

De outra sorte, Veja mente ao dizer que o Papa reconhece que a Igreja tratou o corpo como inimigo da alma. E toma por base o texto do próprio documento do Santo Padre: “Hoje não raro se reprova ao cristianismo do passado ter sido adversário da corporeidade; de fato, sempre existiram tendências nesse sentido.”

Quanta distorção das palavras do Sumo Pontífice! Veja força um entendimento, empresta ao texto um sentido que não resiste à mera leitura do mesmo.

Em nenhum momento, reconheceu o Papa que a Igreja tratou o corpo como inimigo da alma. Não há essa expressão ou semelhantes. Simplesmente, o Papa dá dois dados. O primeiro é que se tornou moda acusar a Igreja de inimiga do corpo (e assim o Papa está atacando a própria revista Veja!). Bento XVI defende a Igreja, mostrando como alguns querem passar a mensagem de que o cristianismo em algum momento pregou ser o corpo inimigo da alma – um erro manifesto, como vimos. Ora, Veja mesmo encontra-se, como lido acima, entre esses “alguns”. A citação do Papa é, pois, um tiro no pé.

O segundo dado é o reconhecimento não de que a Igreja tratou o corpo como inimigo da alma – pois não se reconhece o que nunca aconteceu –, mas de que “existiram tendências nesse sentido”. Muito diferente! Também hoje existem “tendências” para ordenar mulheres, para liberar o aborto, para um falso ecumenismo, e nem por isso representam a doutrina da Igreja. “Tendências” não são o Magistério. Se, no passado, um Bispo Tal defendeu a tese X, nem por isso tornou-se o ensinamento eclesiástico oficial. O que o Romano Pontífice quer dizer – e isso está cristalino, exceto para Veja – é que no meio do trigo há joio, na melhor tradição cristã.

Por último, o erro grotesco do derradeiro parágrafo do artigo do conceituado hebdomadário. Segundo a revista, a encíclica deveria ter sido publicada antes, e a demora deu-se porque Bento XVI “não conseguia conciliar os dois temas, o amor e a caridade.” Como assim, dois temas? A redação de Veja está mal-informada: amor e caridade são a mesma coisa. São sinônimos. Tanto que os textos clássicos de “atos de caridade” (orações conhecidas por todos os católicos) têm por conteúdo demonstrar nosso amor a Deus e ao próximo. Os dois preceitos da caridade, por sua vez, rezam que devemos amar a Deus sobre todas as coisas, com todo o nosso coração, toda a nossa alma, todo o nosso intelecto, e todas as nossas forças, e ao próximo como a nós mesmos, por causa de Deus. Caritas e amor são a mesmíssima coisa. Todos – literalmente todos – os teólogos ensinam a sinonímia.

Não é preciso, entretanto, ir à teologia. Basta um conhecimento rudimentar da língua portuguesa para saber que amor e caridade não são “dois temas”, mas duas palavras para descrever idêntico sentido, dois vocábulos para a mesma significação. E, ao contrário do que (des)informa Veja, não “acabaram ficando separados” na encíclica, pois não se pode separar o que é único. A separação de tratamento se deu entre amor divino e amor humano. Ambos, porém, são amor, ambos são caridade, ambos são a mesma coisa.

O Papa não surpreendeu os católicos. Surpreendeu, no máximo, os que nada entendem das coisas da Igreja, sempre ávidos na inútil tentativa de desestabilizá-la, pois não sabem que as portas do inferno não prevalecerão!

domingo, janeiro 29, 2006

Intransigência e diálogo

Em revista de circulação nacional, dessas que tratam da História, pretendendo traduzir as lições dos intelectuais e acadêmicos para o leitor comum, deparo-me com a chamada relativa à Igreja Católica: da intransigência ao diálogo.

Pela construção do título, a impressão passada é de que, se nos séculos precedentes, com destaque ao período XV-XIX, a Igreja foi intransigente, mostrou-se, na segunda metade da centúria de número XX, mais aberta ao diálogo com os que não comungam de sua fé. Assim, forma-se no leitor a idéia de que a Igreja “antiga”, “de antes”, “tradicional”, ou “pré-conciliar” era dura demais, e de que a “nova”, sim, é moderna. Mais do que isso, abre as portas para outra tese, a de que a Igreja muda, crê de tal modo num instante e de outro num distinto momento. A partir daí, é evidente que alguns serão levados ao seguinte raciocínio: a Igreja “de antes” era intolerante, e a “de hoje” dialoga; ora, isso demonstra que ela mudou; logo, os pontos por ela sustentados que ainda não modernos o suficiente (condenação do aborto, da eutanásia, da desvinculação entre os fins unitivo e procriativo do Matrimônio, da morte de embriões, e da união entre pessoas do mesmo sexo; a negação da ordenação às mulheres; a infalibilidade papal etc) podem, um dia, ser mudados; e, se podem, é direito dos descontentes lutar por tal mudança.

Ocorre que essa operação é uma falácia. Ambas as premissas estão erras (e para caracterizar a falácia bastaria uma), contaminando o teorema, a conclusão e, enfim, todo o silogismo. A Igreja não muda, pois é a depositária da Revelação divina, e Deus não muda. Concedamos para fins de debate que ela esteja errada e não seja a instituição fundada e querida por Cristo. Ainda assim, por crer-se infalível e dirigida por Deus, não mudaria, pois resultaria em confissão de sua falibilidade, restando não mais haver razão de existir. Tem, ao menos, direito de portar-se de modo coerente: se defende não errar e possuir a correta doutrina, natural que a mantenha intacta.

Não há uma Igreja intolerante e uma Igreja do diálogo. Há, isto sim, situações que exigem da Igreja intolerância e situações que exigem diálogo. Antes de excomungar Lutero, v.g., o Papa Leão X travou intenso diálogo com ele, procurando sua emenda. Intolerante foi com o pecado, mas dialogou com o pecador, como é atestado pela Bula Exsurge Domine. A defesa do dogma e da moral requer firmeza, pois a verdade não pode ser sacrificada em nome da caridade. Já o modo de transmitir o dogma e a moral pode ser adaptado às circunstâncias, uma vez que também a caridade não pode ser sacrificada em nome da verdade. Caridade e verdade andam lado a lado, e algumas vezes é pedido da Igreja uma postura mais firme. Outras, o diálogo é a melhor resposta, sem, contudo, mutilar-se a doutrina. Não podemos confundir mudança de visão pastoral e de diplomacia (que podem ser alteradas) com mudança doutrinária (impossível, face à sua indefectibilidade). Na pregação da verdade, pode a Igreja ser intransigente ou propensa ao diálogo, segundo as necessidades; quanto à verdade, em si, sua defesa sempre requer intransigência, como ensinado pelo Cardeal Pie em seu sermão na Catedral de Chartres, em 1841: Recriminar à Igreja Católica sua intolerância dogmática, sua afirmação absoluta em matéria de doutrina é dirigir-lhe uma recriminação muito honrável. É recriminar à sentinela ser muito fiel e muito vigilante, é recriminar à esposa ser muito delicada e exclusiva.”

Se no século XIX, por exemplo, a Igreja mostrou-se mais dura foi para fazer frente às táticas de seus inimigos. Hoje ela não renuncia à batalha. Apenas faz do diálogo mais uma arma, sem renúncia à sadiamente intolerante defesa da verdade. E, desse modo, com ou sem seguidores, continua fiel a Deus e a si mesma.

sábado, janeiro 21, 2006

Tomás de Aquino, glória da Igreja

O dia 28 de janeiro é a memória litúrgica de Santo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, orgulho da Ordem dos dominicanos, o maior teólogo da Igreja e também seu insuperável filósofo. Entre suas obras figuram a monumental Suma Teológica, a apologética Suma contra os Gentios, o Compêndio de Teologia (um de meus livros de cabeceira), inúmeros opúsculos de doutrina e filosofia, comentários a Aristóteles (de quem foi o grande intérprete medieval, contra Averróis) e a Pedro Lombardo, sermões, catequeses, debates, livros sobre dogma e moral, explicações à maioria dos textos bíblicos, glosas jurídicas, teorias políticas, além da composição de toda a liturgia de Corpus Christi.

Sem dúvida, o gênio do cristianismo!

Não é por outro motivo, exceto a penetração de seu raciocínio e a lógica na exposição de seus argumentos, que a Igreja manda, em seu Código de Direito Canônico, que na formação clerical os alunos aprendam a doutrina “tendo por mestre principalmente Santo Tomás.” (cân. 252, § 3) Norma, bem o sabemos, infelizmente nem sempre obedecida.

Todos os Papas, a partir dele, não cessaram de honrá-lo e recomendar seu método e seu ensino. Destacam-se São Pio V, que em 1567 o declarou Doutor da Igreja; São Pio X, com seu Angelici Doctoris; e Pio XI, o qual dedicou toda uma encíclica, Studiorum Ducem, ao Aquinate. Nela, assim se expressava o Pontífice: “A união da doutrina com a piedade, da erudição coma virtude, da verdade com a caridade, foi verdadeiramente singular no Doutor Angélico (...).”

É em Tomás que se encontra a mais sublime defesa da razão, não como inimiga da fé, mas sua aliada. João Paulo II o sintetizou na sua Fides et Ratio: Santo Tomás “argumentava que a luz da razão e a luz da fé procedem ambas de Deus, e portanto não podem contradizer-se entre si.” (nº 43) Justamente por isso, “a Igreja sempre propôs a Santo Tomás como mestre e modelo do modo correto de fazer teologia.” (Fides et Ratio, nº 3)

O “apóstolo da verdade” (Paulo VI. Carta Lumen Ecclesiae, nº 10) é exemplo não só do pensamento estritamente religioso, como também da aplicação dos ditames da fé à ciência, por meio de sua filosofia incomparável.

Por sua vez, o Concílio Vaticano II, na Declaração Gravissimum Educationis (cf. nº 10), reafirma a autoridade de Tomás. Desde sua morte, outrossim, concílio algum, incluindo-se o acima mencionado, ousou apartar-se de seu magistério, e mesmo o de Trento colocou a Suma, que escrevera com tanto esmero e devoção, ao lado da Escritura para guiar os Padres Sinodais.

Que do céu rogue por nós este servo de Deus, proclamado por Leão XIII padroeiro dos estudantes, na Encíclica Aeterni Patris, onde, enfim, expõe preciosa lição: “Tomás recolheu suas doutrinas e compôs com elas um conjunto orgânico, as dispôs com uma ordem maravilhosa e as acrescentou a tal ponto que se o considera, com razão, como o defensor especial e a glória da Igreja Católica.”


No passo da Igreja

Diante da complexidade do fenômeno Vaticano II e da crise que se seguiu ao Concílio, adotam alguns católicos geralmente uma das linhas abaixo, com maior ou menos nuance:

- ou consideram-no liberal, e, por isso, o criticam acidamente e ao Magistério a ele posterior (os tradicionalistras, afinados com Marcel Lefébvre);

- ou, ainda considerando-o liberal, louvam-no justamente por isso, rechaçando dois mil anos de Magistério, como se a Igreja houvesse sido refundada no período conciliar, sem dar maior importância à Tradição (os liberais, progressistas, modernistas, teólogos da libertação);

- ou, enfim, consideram o Concílio tímido face às mudanças que gostariam fossem operadas, como se devesse “avançar” nas modas teológicas, alinhando a Igreja ao mundo (os ultraliberais, modernistas e progressistas radicais, teólogos da libertação ainda mais raivosos).

Não compactuo com nenhuma dessas correntes. Aliás, os católicos de verdade não podem filiar-se a elas. A Igreja não tem facções. É católica, universal. É una: una na doutrina, e una no governo. O Vaticano II não foi liberal, e tampouco o vejo como isento de termos dúbios. Foi importante, mas a Igreja e sua doutrina são a ele anterior.

Ainda que, em si, o Concílio não seja progressista (pois a Igreja é infalível, e o progressismo um erro), seus textos podem ser distorcidos (e de fato o foram!): para atacar a Igreja “de antes” (liberais) ou “de agora” (tradicionalistas). “Estou convencido”, diz o Papa Bento XVI, “de que os danos não são atribuíveis ao Concílio ‘verdadeiro’, mas ao desencadear-se, no interior da Igreja, de forças latentes agressivas (...), [e] no exterior, ao impacto de uma revolução cultural (...).” (A fé em crise?, p. 17)

Quanto às suas passagens de difícil interpretação, e aparentemente contraditórias com pronunciamentos eclesiásticos anteriores, só ao Magistério cabe a palavra final. No que tem o Vaticano II de clareza, resta-nos o assentimento da fé (devido à suprema autoridade de ensino da Igreja), e a obediência religiosa (devido à suprema autoridade de governo). No que tem de dubiedade, deixemos que a Igreja resolva, ilumine. Não é nossa função criticá-lo, nem interpretá-lo fora da Tradição ou do Magistério (anterior ou posterior).

“(...) defender hoje a Tradição verdadeira da Igreja significa defender o Concílio. (...) É ao hoje da Igreja que devemos permanecer fiéis, não ao ontem nem ao amanhã (...).” (op. cit., p. 18)

Andemos ao passo da Igreja, nem à frente nem atrás. Almejemos estar ex corde Ecclesiae, no coração da Igreja, certos de que agradaremos a Cristo pela doce sujeição ao Seu Vigário, o Papa. Esta a militância genuína que se nos é pedida: a fidelidade e a adesão ao Romano Pontífice e à doutrina de sempre da Igreja, reafirmada (e não negada) pelo Concílio, entendido este, porém, nos seus devidos termos, “[s]em reservas que os amputem. E sem arbítrios que os desfigurem.” (op. cit., p. 18)


segunda-feira, janeiro 02, 2006

Laicidade e Laicismo

Excelente artigo do Pe. Francisco Faus, publicado no site da Quadrante.

Recomendação d'O Ultramontano. Favor não confundir com o NOSSO artigo, denominado "Laicismo e laicidade" (os termos estão, como é visível, contrariamente dispostos).

terça-feira, dezembro 20, 2005

Notícia do ZENIT: Laicidade significa distinção de poderes, não oposição; declara Bento XVI

Laicidade significa distinção de poderes, não oposição; declara Bento XVI
Ao receber as cartas credenciais do novo embaixador da França


CIDADE DO VATICANO, 19 de dezembro de 2005 (ZENIT.org).- Para Bento XVI, a laicidade significa em «sã distinção» entre os poderes, não oposição.

O pontífice discutiu a questão ao receber as cartas credenciais do novo embaixador da França na Santa Sé, Bernard Kessedjian (1943), que até agora era representante permanente da França no Escritório das Nações Unidas em Genebra.

O próprio bispo de Roma fez referência no discurso que dirigiu em francês ao centenário que se cumpriu em 9 de dezembro passado da lei que instituiu na França a separação entre as Igrejas e o Estado.

Com esse motivo, João Paulo II dedicou uma de suas últimas cartas, datada em 11 de fevereiro, dirigida aos bispos da França, a oferecer a visão da Igreja sobre o princípio de laicidade (Cf. Carta por ocasião do centenário da lei de separação entre Estado e Igrejas).

Bento XVI, no discurso que dirigiu ao representante do presidente Jacques Chirac, inspirando-se naquela carta de seu predecessor, declarou que «o princípio de laicidade consiste em uma sã distinção dos poderes, que não é nem muito menos uma oposição e que não exclui a Igreja de uma participação ainda mais ativa na vida da sociedade, no respeito das competências de cada um».

Segundo o Papa, «uma concepção assim deve promover ainda mais a autonomia da Igreja, tanto em sua organização como em sua missão».

Por este motivo, considerou «muito positivo que se dêem encontros de instâncias de diálogo entre a Igreja e as autoridades civis».

«Estou seguro de que isto permitirá fazer que contribuam ao bem dos cidadãos todas as forças comprometidas e que dará frutos na vida social», assegurou.

Código: ZP05121905
Data de publicação: 2005-12-19

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domingo, dezembro 18, 2005

Mais à esquerda do que aparenta

Esta é a realidade, expressa no título: o Partido dos Trabalhadores não deixou de ser socialista para se aliar à direita, às elites, aos banqueiros, ao "projeto neoliberal de FHC, de Bush, da ALCA e do FMI", como gritariam Heloísa Helena, Babá e Luciana Genro. Ainda que aparente ter traído seus "princípios proletários", o PT está é colocando em prática a mais primitiva das técnicas apregoadas por Lênin, a da criação das condições propícias de tomada de poder.


Vejam bem: com o discurso radical contra a propriedade privada, contra o respeito aos contratos, a favor da estatização das empresas, o PT amargou duras derrotas de seu eterno candidato Lula à presidência da República. A mudança de tom era necessária. Não porque o PT mudara, mas para atrair os incautos e, de outra maneira, mais sutil, destilar o veneno marxista em doses homeopáticas. Assim, galgando os degraus do Planalto, Lula mostrou-se mais flexível, e até foi pedido ao MST e à CUT que tolerassem o fingimento do PT fazendo-se centrista. Já no poder, tratou o Partido de desenvolver trabalho dúplice: fortalecia a economia de um modo quase-direitista (notem o quase, pois se direitista fosse, não haveria essa absurda taxa de juros destroçando a classe média, a propriedade privada e a livre-iniciativa, os pilares de uma ordem realmente conservadora); e, por outro lado, aumentava tributos, manipulava o Parlamento com mensalões, aparelhava o Estado, fortalecia os vínculos com Cuba e a Venezuela de Chávez, patrocinava com dinheiro público as passeatas de grupos campesinos em suas desordens de costume, e, em açóes menos visíveis, elogiava ex-guerrilheiros comunistas, subvencionava históricos programas igualitários (pró-homossexuais, pró-aborto, pró-confisco da propriedade rural, v.g.), tudo em consonância com os postulados socialistas.



Se o PT agisse de modo mais explicitamente esquerdista, seria defenestrado dos palácios que ora ocupa. Sorrateiramente, cobriu com um espetáculo um pouco menos vermelho, tal qual cortina de fumaça, a ação típica de seu programa favorável ao totalitarismo.



Agora protestam os extrema-esquerda contra Lula, mas por não entenderem que, no momento presente, o interesse da Revolução é posar de boazinha, melhorar a saúde financeira das empresas (quem quer tomar para si sociedades instáveis e sem lucratividade?), aparentar certo direitismo. O PT age à moda de Gramsci e Lênin, e não como os juvenis Mao e Che. É, assim, mais comunista (e traiçoeiro) do que os PSTU, P-SOL e PCOs da vida! O PT não se corrompeu por causa da direita. Apenas colocou as unhas de fora, teimando no esquerdismo que não pensa ser corrupção nada que o Partido sancione como justo, pois, conforme a máxima gramsciana, tudo é permitido ou proibido, virtuoso ou criminoso, somente segundo o que define sua própria cartilha.


quarta-feira, dezembro 07, 2005

A defesa de Jasna Gora


Comemoramos, em 2005, os 350 anos da defesa militar de Jasna Gora. Naquela ocasião, invadindo os suecos a católica Polônia, não puderam vencer os que se enclausuraram nesse famoso santuário marino, o qual abriga o ícone da Virgem de Czestochowa, tão venerada pelo saudoso João Paulo II.


Jasna Gora, convertida de igreja em fortaleza intransponível ao invasor, representa o coração da pátria polonesa. Em toda a sua gloriosa história, soube a Polônia manter, ao mesmo tempo, sua característica nacional eslava e sua fidelidade à Sé Apostólica. Ao contrário de sua poderosa irmã Rússia, pôde, com parte da Ucrânia (seja de rito latino, seja greco-católico) e minorias de outros países do Leste Europeu, continuar o autêntico eslavismo sem, com isso, renunciar à fé católico, apostólica, e romana.


A histórica defesa de Jasna Gora, outrossim, evoca fatos semelhantes protagonizados pelo espírito polonês: a resistência aos czares e seus apaniguados da cismática Igreja russa, mal-chamada ortodoxa; a célebre Batalha de Legnica, em 1241, em que a Polônia deteve a invasão do exército mongol que se precipitava sobre a Europa; a contribuição de Pawel Wlodkowic na formação de um sadio Direito Internacional, baseado na soberania dos Estados, na dignidade da pessoa humana, na fraternidade entre os povos, e nas diretrizes católicas e humanísticas da doutrina social da Igreja; o incentivo à unidade entre Roma e os cristãos eslavos e bálticos de rito oriental, que, sem deixar seus costumes, sua disciplina e sua liturgia próprios, aceitaram a autoridade do Papa; e a esplêndida vitória cristã contra os turcos otomanos, comandada pelo rei polonês João III Sobieski, em 1683, a qual fez recuar, por anos, a ameaça bélica muçulmana sobre a Cristandade.


É dessa Polônia aguerrida e fiel, dessa Polônia de Sobieski e de Legnica, dessa Polônia da União de Brest, dessa Polônia do Cardeal Wyszynski, inimigo capital do marxismo, dessa Polônia de Jasna Gora que, enfim, recordamos as virtudes. Vítima dos infiéis e dos cismáticos, e, em boa parte do século XX, também dos comunistas, resistiu firme às tempestades, como um símbolo da Igreja indefectível cuja fé molda sua nação. A Polônia de Karol Wojtyla, primeiro de sua raça a ocupar o trono de São Pedro, só conseguiu sobreviver a tantos percalços (especialmente a ocupação nazista e a ditadura socialista) por sua inquebrantável fidelidade a si mesma, à sua identidade católica. Patriótica, convicta de seus valores, não sucumbiu ao pensamento moderno, e alimenta o progresso com a tradição.


"Queremos ver a Europa baseada na ética cristã." (Maciej Giertych, deputado polonês ao Parlamento Europeu) Esta a aspiração polaca. A mesma que impede o avanço das modas contrárias à alma do Velho Continente, que caminha a passos largos em outros países. "Os efeitos do conservadorismo religioso na Polônia foram sentidos em 2003, durante a redação da Constituição Européia, quando Varsóvia argumentou que o preâmbulo deveria fazer menção à herança cristã da Europa." (Graham Bowley; Herald Tribune)



Somente assim segue indestrutível como o santuário de Jasna Gora, dizendo um retumbante "não" aos que lhe querem impor a união homossexual, o aborto, e o laicismo da União Européia contemporânea. Hoje, como dantes, a Polônia não defende só a si. A Polônia é o forte que defende a própria Europa daqueles que a tentam desfigurar.

domingo, novembro 27, 2005

El P. Marcial Maciel, L.C. cumple hoy 61 años de sacerdocio

El P. Marcial Maciel, L.C. cumple hoy 61 años de sacerdocio

Hace 61 años, Mons. Francisco González Arias, ordenó sacerdote al P. Maciel en la Basílica de Nuestra Señora de Guadalupe.

México, 26 de noviembre de 2005. El P. Marcial Maciel, L.C. fundador de la Congregación de los Legionarios de Cristo y del Movimiento Regnum Christi, cumple hoy 61 años de sacerdocio.

Hoy, hace 61 años, Mons. Francisco González Arias, entonces obispo de Cuernavaca, ordenó sacerdote al P. Maciel en la Basílica de Nuestra Señora de Guadalupe, en la Ciudad de México. La Legión de Cristo tenía, entonces, tres años de vida y contaba con un puñado de seminaristas menores. Hoy, esta realidad se ha desarrollado en 18 países en los que desempeñan su labor más de 650 sacerdotes.

El 25 de noviembre de 2004, en la Basílica de Santa María la Mayor, en Roma, se firmó el decreto de aprobación oficial de los Estatutos del Movimiento Regnum Christi. El acto se llevó a cabo en la misa celebrada por Mons. Franc Rodé, CM, Prefecto de la Congregación para los Institutos de Vida Consagrada y las Sociedades de Vida apostólica, cuando ordenó a 59 sacerdotes legionarios de Cristo.

Damos gracias a Dios por el don de Dios en el sacerdocio del P. Marcial Maciel, L.C. y nos unimos en oración pidiendo que nuestro Señor lo continúe bendiciendo en su vida y labor apostólica.

domingo, novembro 13, 2005

Cristo Rei ou Anti-Cristo?




A tarefa dos cristãos é, além de sua santificação pessoal, a dilatação da fé pelo apostolado, fazendo com que todos os homens, livremente, rendam suas almas a Cristo. Para que isto ocorra, se lhes junta outra missão, inafastável sobretudo nestes tempos de ódio à religião e à virtude: a recristianização da sociedade, a ser desempenhada, segundo o Concílio Vaticano II, principalmente pelos leigos, os quais devem, "por própria vocação, procurar obter o Reino de Deus gerindo os assuntos temporais e ordenando-os de acordo com Deus." (Constituição Dogmática Lumen Gentium, 31)


Não só os homens, mas também as sociedades dignas de sua identidade católica, e os Estados que as dirigem, devem obedecer a Deus, embora isso possa soar intolerante e anacrônico em face dos modernos (ainda que ilegítimos) princípios do laicismo, relativismo filosófico e religioso, e separação radical entre trono e altar - que na Europa começa a dar novas provas de sua perversidade, e no Brasil ensaia, mesmo com atraso, seus primeiros grandes passos com a legalização criminosa do aborto, as tentativas de silenciar injustamente a voz dos Bispos, a imposição do "casamento" gay contra a lei natural e os costumes de nossa gente, e a campanha pela retirada dos crucifixos no Judiciário gaúcho. O Papa Pio XI, instituindo a solenidade de Cristo Rei, em 1925, expressava seu autorizado ensino: "A celebração desta festa (...) constituirá também uma admoestação para as nações de que o dever de venerar publicamente Cristo e de Lhe prestar obediência diz respeito não só aos particulares, mas também aos magistrados e aos governantes." (Encíclica Quas Primas, 33) Há um Reinado Social de Jesus Cristo - conforme a expressão do Cardeal Pie e consagrada no Magistério eclesiástico -, reflexo do Reino dos Céus e daquele estabelecido nas almas, e portanto "erraria gravemente quem subtraísse a Cristo-Homem o seu poder sobre todas as coisas humanas e temporais" (Pio XI, op. cit., 15). Seu Reino não é deste mundo (cf. Jo 18,36) porque vem do céu, não sendo limitado pelas vicissitudes terrenas: o texto joanino não pode ser pretexto, porém, para invocar uma realeza exclusivamente espiritual. O ser humano é espírito e matéria, alma e corpo: no cristão, Jesus é Rei de ambos e da sociedade onde vive.


Discordante dessa verdade, há o liberalismo sanguinário do século XIX, ainda muito forte, nascido da vaidade e do orgulho, e que se origina na Revolução Francesa e se espalha mundo afora em distintas ramificações: anticlericalismo, indiferentismo, relativismo, absolutização das democracias, e todas as formas de totalitarismos modernos (nazismo, fascismo, comunismo, socialismo), bem como a ideologia dos atuais politicamente corretos. Inimigos do Reinado Social de Cristo sobre a ordem temporal - que não se faz ignorando o Estado, como poderiam acusar alguns; pelo contrário, respeitando-o e reconhecendo sua independência e soberania no campo que lhe é próprio, a gerência dos negócios civis, mas submetendo-o a Deus -, esses que Leão XIII denominou "a peste de nossa época" (Encíclica Annum Sacrum) constituem-se sob o estandarte de quem se coloca contra Deus. São os mesmos que bradam no Evangelho: "Não queremos que ele reine sobre nós." (Lc 19,14)

Importa aos católicos assumirem seus lugares na tropa que milita pela autêntica Civilização da justiça, da paz, da concórdia, da harmonia social, da hierarquia, da ordem e dos valores, sob o comando de Cristo Rei, cuja festa litúrgica, no último Domingo do Tempo Comum, este ano em 20 de novembro, celebramos, unidos a Bento XVI, com renovado entusiasmo.

Cân. 750 – § 1. Deve-se crer com fé divina e católica em tudo o que se contém na palavra de Deus escrita ou transmitida por Tradição, ou seja, no único depósito da fé confiado à Igreja, quando ao mesmo tempo é proposto como divinamente revelado quer pelo magistério solene da Igreja, quer pelo seu magistério ordinário e universal; isto é, o que se manifesta na adesão comum dos fiéis sob a condução do sagrado magistério; por conseguinte, todos têm a obrigação de evitar quaisquer doutrinas contrárias.

§ 2. Deve-se ainda firmemente aceitar e acreditar também em tudo o que é proposto de maneira definitiva pelo magistério da Igreja em matéria de fé e costumes, isto é, tudo o que se requer para conservar santamente e expor fielmente o depósito da fé; opõe-se, portanto, à doutrina da Igreja Católica quem rejeitar tais proposições consideradas definitivas.

Cân. 752 Não assentimento de fé, mas religioso obséquio de inteligência e vontade deve ser prestado à doutrina que o Sumo Pontífice ou o Colégio dos Bispos, ao exercerem o magistério autêntico, enunciam sobre a fé e os costumes, mesmo quando não tenham a intenção de proclamá-la por ato definitivo; portanto os fiéis procurem evitar tudo o que não esteja de acordo com ela.